Psicologia Analítica e Alma Brasileira

“Em nosso árduo e artesanal trabalho de consultório, tentamos resgatar, refazer ou formar modelos de pais internos de cada indivíduo. O processo terapêutico envolve muito amor, dedicação, respeito, ética, paciência e tempo. É também um processo didático de reabilitação e educação, em que é fundamental a integração da sombra à consciência e à discriminação. O processo de resgate da alma brasileira se dará por esse mesmo caminho.

Nosso povo precisa forjar um modelo positivo de casal parental, de uma nova consciência, de uma ética mais profunda. Precisamos de uma boa educação que nos conscientize e trabalhe nosso discernimento, ou seja, um pai firme que imponha limites e colabore no processo de ampliação da consciência.

Educação, reeducação da sociedade e reformulação de valores é o que necessitamos. O indivíduo, por um lado, deve assumir sua responsabilidade heroica de consciência social. O Estado, por outro, precisa cumprir sua função de um modelo político de compromisso com a educação formal e a não formal. A transparência e a ética devem tomar o lugar do “jeitinho brasileiro”, da “lei de Gérson”, da malandragem, da inconsequência.

O pai não pode ficar ausente: os deputados e senadores não podem ausentar-se das assembleias e reuniões de discussões de leis de interesse social ou de votações constitucionais. Os juízes não podem se omitir ou “dar um jeitinho” e absolver corruptos.  Os comerciantes e empresários não podem especular sobre as mercadorias e precisam criar mais ambulatórios e creches dentro de suas empresas. Médicos, psicólogos e professores devem assumir a responsabilidade social de suas funções e ter salários decentes a fim de que a população tenha um atendimento digno. O povo não deve sonegar impostos; por outro lado, fica irritado em pagá-los e não ver resultados da aplicação dos mesmos em benefícios públicos. O pobre não têm o direito de roubar em nome de uma injustiça social. Os sem-terra não têm o direito de invadir terras indiscriminadamente em nome da reforma agrária.

Nesses últimos anos estão sendo descobertos e investigados negócios e esquemas de corrupção nas instituições, que há muitos anos ocorrem. E, surpreendentemente, nos mostram que as estruturas de corrupção estão de tal forma arraigadas no poder que transcendem a prática dos setores conservadores e oligárquicos, afetando e envolvendo lideranças populares, progressistas, sindicatos e organizações sociais.

E o que fazemos com isso? Nossa sombra social não está sendo devidamente examinada e considerada. Continua marginalizada da consciência e nos ataca. Assim, bandidos, traficantes, trombadinhas, invadem a cidade e assistimos à assaltos, chacinas, sequestros, que constituem uma guerra civil disfarçada. Representam uma força do inconsciente que foi reprimida ou ignorada. Tanto é que no plano prático essa marginalidade passa a ser mais “organizada” e violenta, muitas vezes por meio de setores bem situados da sociedade formal (policiais, militares, políticos, empresários), que estão por trás do tráfico de drogas, do contrabando de armas, etc.”

(citação do livro “A Mutilação da Alma Brasileira: um estudo arquetípico”, de Dulce Helena Rizzardo Briza – Editora Vetor)

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