Reflexões sobre o panorama brasileiro

Segue um trecho do livro “A Mutilação da Alma Brasileira”, de minha autoria.

Convido vocês a refletir e dar suas opiniões.

Abraços

Sabemos que temos problemas sérios e profundos. E que têm longa data de existência. Nossos 60 milhões de pobres e 30 milhões de miseráveis, os assaltos e roubos decorrentes da desigualdade social e da deformação de caráter, a alta taxa de mortalidade, as doenças endêmicas, a doença mental, a carência, nos fazem pensar que precisamos de saídas e soluções novas, de novos modelos de legislação, jurisdição e execução. Nossos problemas de déficit público vêm acontecendo desde 1950. Precisamos resolver nossa questão fiscal. Precisamos criar um modelo econômico contemporâneo que propicie que se arrecade mais do que se gasta. Temos um caminho longo pela frente.

Em nosso árduo e artesanal trabalho de consultório, tentamos resgatar, refazer ou formar modelos de pais internos de cada indivíduo. O processo terapêutico envolve muito amor, dedicação, respeito, ética, paciência, tempo. É também um processo didático de reabilitação e educação, onde é fundamental a integração da sombra à consciência e a discriminação. O processo de resgate da alma brasileira se dará por esse mesmo caminho.

Nosso povo precisa forjar um modelo positivo de casal parental, de uma nova consciência, de uma ética mais profunda. Precisamos de um bom Pai, que nos ajude em nossa educação e em nosso discernimento. Um Pai firme que imponha limites e colabore no processo de ampliação da consciência.

Educação, reeducação da sociedade e reformulação de valores é o que precisamos. O indivíduo, por um lado, deve assumir sua responsabilidade “heróica” de consciência social. O Estado, por outro, precisa cumprir sua função de um modelo político de compromisso com a educação formal e a não-formal. A transparência e a ética devem tomar o lugar do “jeitinho brasileiro”, da “lei de Gérson”, da malandragem, da inconseqüência. O Pai não pode ficar ausente: os deputados e senadores não podem se ausentar das assembléias e reuniões de discussões de leis de interesse social ou de votações constitucionais. Os juízes não podem se omitir ou “dar um jeitinho” e absolver corruptos. Os comerciantes e empresários não podem especular sobre as mercadorias e precisam criar mais ambulatórios e creches dentro de suas empresas. Médicos, psicólogos e professores devem assumir a responsabilidade social de suas funções e ter salários decentes a fim de que a população tenha um atendimento digno. O povo não deve sonegar impostos; por outro lado, fica irritado em pagá-los e não ver resultados da aplicação dos mesmos em benefícios públicos. O pobre não tem o direito de roubar em nome de uma injustiça social. Os “sem-terra” não têm o direito de invadir terras indiscriminadamente em nome da reforma agrária. O assassinato e a impunidade dos assassinos de líderes seringueiros (como o exemplo de Chico Mendes) e líderes camponeses do Norte, Nordeste e Sudeste, além de outros tantos “marcados para morrer” pelas forças armadas dos latifundiários e a conivência dos poderes políticos e militares locais são fatos que acompanhamos freqüentemente pela imprensa. Lemos, com pesar, sobre a impunidade dos deputados e políticos influentes.

E o que fazemos com isso?

Nossa Sombra social não está sendo devidamente examinada e considerada. Continua marginalizada da consciência e nos ataca. Assim, bandidos, traficantes, trombadinhas invadem a cidade e assistimos a assaltos, chacinas, seqüestros, que constituem uma guerra civil disfarçada. Representam uma força do inconsciente que foi reprimida ou ignorada. Tanto é que no plano prático essa marginalidade passa a ser mais “organizada” e violenta muitas vezes através de setores bem situados da sociedade formal (policiais, militares, empresários), que estão por trás do tráfico de drogas, do contrabando de armas etc. E qual é a função do governo nisso tudo?

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