Entrevista – Alma e pensamento sem fronteiras

Entrevista Dulce Helena R. Briza | Revista Guia de Psicanálise – Jung – por Matheus Moura

Para começarmos, diga um pouco o que motivou-a a escolher a análise junguiana.

Tive contato com o pensamento de Jung ainda muito jovem. Li “Memórias, Sonhos e Reflexões” e fiquei fascinada pela abordagem e pela maneira como encarou seu processo de vida e compôs sua teoria. Foi, sem dúvidas, uma obra de arte, guiada por uma intuição enorme e um cabedal de cultura e erudição. Jung foi sempre um estudioso pesquisador, que elaborou sua teoria através de vivência, leitura, viagens e comprovações científicas, advindas do contato com o ser humano e suas diversas culturas. Isso tudo foi o que me motivou a estudar Psicologia, depois de sair do curso de Ciências Sociais. Enquanto fazia análise junguiana, fiz a faculdade citada, freqüentei palestras e cursos voltados para a Psicologia Analítica, assim como grupos de estudo. Fui me enfronhando cada vez mais nesse mundo tão delicado e profundo e não tive dúvidas de que esse era meu caminho, ou o caminho da minha alma. Comecei a fazer a formação de analista na primeira turma da então recém fundada Associação Junguiana do Brasil, filiada à International Association for Analytical Psychology, a participar de Congressos Internacionais e Nacionais, atendendo com muita vontade e zelo os meus pacientes, sem nunca ter tido nenhuma dúvida de ter optado por essa linha de trabalho.

Quais são as premissas da escola?

A árvore teórica frondosa que Jung plantou deixou raízes profundas na terra fértil da Psicologia Analítica. Ele certa vez disse que graças a Deus era Jung e não junguiano. Para ele, os “ismos” correspondiam às pragas que assolaram a Idade Média.

Assim, cada indivíduo deve traçar seu caminho e se desenvolver de acordo com os apelos do Self (Si-mesmo). É função da análise ajudar uma pessoa a tornar-se si mesma, inteira, distinta das outras. Esse é o processo de individuação, que contribui sobremaneira para as teorias do desenvolvimento da personalidade. Dessa forma, a neurose pode ser vista como uma busca de “cura”, quando chama a atenção do indivíduo que está buscando um equilíbrio e percebe que está sem rumo, com falta de significado, confuso ou perturbado. Isso quer dizer que se desenvolveu unilateralmente.

A teoria junguiana lida com vários conceitos como Inconsciente Pessoal, Inconsciente Coletivo, Arquétipos, Anima, Animus, Sombra, Complexos, Tipos Psicológicos, Símbolos. Trabalha também com os sonhos, mitos, contos de fada e alquimia. Lida com a realidade da psique, que tem sua própria estrutura e também está sujeita às próprias leis.

Para quem tiver curiosidade, postei em meu blog vídeos de entrevistas feitas com Jung, onde ele fala um pouco sobre a vida e sua teoria.

Como estudante da psique, o psicanalista junguiano encara o inconsciente de que maneira? O que é ele? E o consciente?

Para Jung, a consciência surge de uma psique inconsciente mais antiga do que ela e funciona paralelamente a ela, ou apesar dela.

É uma função da atividade que sustenta a relação de conteúdos psíquicos com o ego.

O inconsciente pode ser pessoal, formado por percepções, vivências, impressões, recordações penosas de serem lembradas, qualidades negativas que nos desagradam. Ou coletivo, constituído por camadas mais profundas e fundamentos estruturais que são denominadores comuns de toda humanidade.

Como é a influência da linha junguiana no Brasil?

No Brasil temos duas sociedades que formam analistas, que são a AJB, Associação Junguiana do Brasil, constituída pelos institutos de S.Paulo, Campinas, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia, e a SBPA, Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica. Ambas são vinculadas e sintonizadas com a grade curricular da International Association for Analytical Psychology, com sede em Zurich, onde Jung viveu.

O pensamento junguiano está sendo muito difundido no Brasil e procuramos levar a teoria para estudos da realidade brasileira. Eu mesma venho me empenhando em estabelecer o estudo da cultura e da mitologia brasileira, que deve ser indispensável na formação de analistas, pois está presente em nosso inconsciente coletivo e portanto fazem parte do nosso trabalho de consultório.

Há vários junguianos que se preocupam e fazem trabalhos sobre isso, como por exemplo o analista Roberto Gambini, que fez formação em Zurich e sua monografia de final de formação virou um livro, “O Espelho Índio”, muito interessante. Minha monografia também tornou-se um livro, “A Mutilação da Alma Brasileira – um estudo arquetípico”, onde faço um estudo do lado mutilado da alma do índio, do negro e do branco e as conseqüências disso em nossa psique, individual e coletiva, na sociedade e na (falta de) ética. José Jorge Zacharias também tem publicações sobre os orixás e a mitologia africana. Há vários junguianos pensando a teoria em termos de Brasil.

Não se faz o processo de individuação numa ilha. Ele implica numa responsabilidade e conexão com a sociedade e realidade que o indivíduo vive.

De uma maneira simples, como definiria a psicanálise pensada por Jung?

Ela visa um movimento em direção à totalidade, de forma que a pessoa assuma sua própria identidade, seja o que ela realmente é e realize seu potencial. Isso acontece quando fazemos a integração de partes conscientes e inconscientes da personalidade e se dá através da manifestação de sonhos, símbolos, imagens, desenhos, pinturas, caixas de areia, etc. Assim, o analista procura trabalhar a integração da psique do analisando levando-o a ser mais livre e mais criativo.

Quais seriam as principais diferenças entre a psicanálise junguiana e a freudiana?

Freud teve grandes méritos na criação da Psicanálise, na abordagem do inconsciente, no trabalho com sonhos e Jung esteve junto dele um bom período. Foi inclusive presidente da Sociedade de Psicanálise. Mas houve uma cisma pessoal e teórica entre os dois. Jung expandiu o conceito de libido, que para Freud estava ligado á sexualidade, enquanto que para Jung é toda energia psíquica. Ele não aceitou a redução da causa das neuroses a problemas ligados à sexualidade infantil, ou problemas da infância. A libido flui entre dois pólos opostos e quanto maior a tensão entre os contrários (que tem função reguladora), maior é a energia. Essa função reguladora dos opostos é inerente ao ser humano e essencial para a compreensão do psiquismo. Se reprimimos essa libido ou a enrijecemos, ela volta para o inconsciente e irrompe na consciência como sintoma neurótico, manifestando-se através de fantasias, comportamento infantil ou primitivo.

Outra discordância foi sobre o conteúdo manifesto ou latente dos sonhos, pois Jung não os considerava como uma mensagem potencialmente enganosa, que precisava ser decodificada, mas uma ocorrência natural, não um elemento para nos desorientar.

Ocorre também que Freud tinha uma abordagem de causalidade em relação aos fenômenos psíquicos e Jung trabalhava com o conceito de finalidade.

Atualmente, quais as lições que se pode tomar do pensamento de Jung?

Jung não se propôs a dar lições. Ele foi um incansável estudioso da psique. Mas posso afirmar que o caminho de fazer alma é infindável. O ”famoso” processo de individuação é ao mesmo tempo árduo, sofrido, lento, mas altamente gratificante e libertador. Dá mais tolerância, mais sabedoria, mais segurança e bem-estar. Dá auto-percepção, auto-imagem mais precisa, o que nos afasta do autoengano. A liberdade individual, ou mesmo a espiritualidade, não são questões a serem resolvidas de fora para dentro, ou seja, coletivamente, porque as massas não mudam se o indivíduo não mudar. Esse processo de individuação, de libertação e buscas, às vezes difícil, mas integradora, é o foco da análise junguiana.

Estaria, hoje, a psicanálise junguiana, de certa forma, “datada”? Como ela se atualizou com o passar do tempo?

No decorrer do tempo o pensamento de Jung foi desenvolvido e por vezes modificado por seus seguidores , como Aniela Jaffé, Marie Luise Von Franz, Edward Eddinger, Mario Jacoby, Nise da Silveira, Erich Neumann, Adolf Guggenbuhl-Craig, Murray Stein, Fordham e outros. São vários os pós-junguianos que nos brindam com excelentes trabalhos, destacando-se a corrente da Psicologia Arquetípica, com Rafael Lopez- Pedraza, James Hillman, Patricia Berry, Giegerich e outros.

Há fronteiras para a psicanálise?

A alma não tem fronteiras e o pensamento também não, assim como a imaginação, as fantasias, os sonhos. Sabemos que pouco sabemos sobre a vida, o mundo e o ser que habita o mundo, tanto na área médica, como na psicológica. Na realidade, precisamos ter consciência de que em certas esferas ainda engatinhamos. Temos, no entanto, algumas certezas e comprovações. A compreensão da alma do indivíduo será sempre uma eterna viagem compartilhada por analista e analisando. Sinto que há um mar a ser navegado quando abordamos o indivíduo e seu meio. Alem da nossa alma e de nossa formação, temos vários instrumentos para trabalhar com a psique e constato que ótimos resultados são verificados emnosso trabalho de consultório. O amor e a dedicação são elementos fundamentais na nossa profissão, assim como na vida em geral. Não só a teoria e o pensamento, mas o coração deve estar sempre aberto para a pessoa que está à nossa frente, que nos convida a viajar pelos recônditos da alma e do encontro. Para o amor não há fronteiras. É preciso que consideremos amorosamente a Psicanálise.

Dulce - 24 de outubro de 2017 - 17:35

Olá Camila,
Conte comigo para o esclarecimento que precisar!
Abraço

Camila M.S.Gomes - 9 de outubro de 2017 - 20:41

Boa tarde, Dulce…

Estive em sua palestra em São José do Rio Preto, e cada vez me sinto mais decida a caminhar neste entrelaçado Junguiano…
Sua entrevista acima foi confortante para mim nesse processo de conhecimento da abordagem e escolha…

obrigada !

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