Psicologia, Responsabilidade e Cidadania

“Em nossa labuta de consultório trabalhamos com o inconsciente, com o invisível, com perversões, com a Sombra. Lidamos com o que não está bem, com o que não está integrado, com o que está dissociado, com o que está reprimido, com o que precisa ser refeito ou resgatado. Como nação, precisamos fazer o mesmo: lidar com nossas almas penitentes e resgatar a alma nacional e ancestral que, pelo desrespeito, ficou no inconsciente.

Precisamos examinar nossas diferenças culturais, fazer nosso diagnóstico psíquico-cultural e decidir o que queremos ser. É importante que trabalhemos nosso lado regressivo, complexado, que tem vergonha e que não vê saídas.

Jung certa vez argumentou que o ritmo da consciência por meio da Ciência e da Tecnologia foi muito rápido e deixou o inconsciente, que não pôde acompanhá-lo, bem para trás, forçando-o assim a uma posição defensiva, que se expressou num desejo universal de destruição. Isso ficou óbvio com a deflagração das guerras mundiais, nas quais o Brasil teve pouca participação. Tendo isso em conta, lembrou-nos da necessidade de uma liberdade espiritual, afirmando que essa questão não pode ser resolvida de fora para dentro, isto é, coletivamente, porque as massas não mudam se o indivíduo não mudar e se responsabilizar por si mesmo. Isso realmente só se torna possível dentro de um regime democrático, com liberdade, e não debaixo da lei da força.

O psiquiatra e analista Carl Fierz lembra que devemos procurar nossos símbolos internos e guardá-los nos corações. Isso em termos políticos significa que temos responsabilidade individual como cidadãos que pertencem a uma comunidade. E, em termos metafísicos, que nossas intenções e erros nos levam a sermos o que somos.

Uma desordem psíquica não pode ser encarada somente como um escândalo, mas como um sinal para o desenvolvimento pessoal. Isso também acontece com um país e com uma cultura.

O processo de individuação não é um recolhimento a uma torre de marfim, ao contrário; a responsabilidade social é um elemento crucial da individuação. A personalidade bem equilibrada implica que o indivíduo saiba se ajudar e ajude ao próximo.

Como terapeutas, não podemos esquecer desse compromisso, da responsabilidade cívica e profissional, de não sermos alienados da realidade individual e coletiva. Devemos exercitar a cidadania. Precisamos ter a consciência bem desenvolvida e o coração bem aberto.”

“A mutilação da alma brasileira: um estudo arquetípico”, de Dulce Helena Rizzardo Briza -  Vetor Editora

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