O Clamor de Maria (reflexões sobre a lama de Mariana)

Amigos,

Este é  original do artigo que foi escrito para a revista Self do Instituto Junguiano de São Paulo.

Vocês poderão ler sua publicação mais resumida no seguinte link: https://self.emnuvens.com.br/self/article/view/5

O CLAMOR DE MARIA

Dulce Helena Rizzardo Briza

Resumo:

O desastre ambiental do vazamento de lama com rejeitos de mineração ocorrido em Mariana (MG) pode ser visto como expressão da putrefactio existente em relação à ética e aos valores do povo brasileiro. O acidente aconteceu numa cidade com um nome feminino, o que demonstra que aspectos represados e ignorados da alma brasileira irromperam em forma de lama. Esse acontecimento nos convida a utilizar o barro para dar forma a uma nova consciência. Maria não pode ser ignorada. Através do estudo de nossa história, nossa mitologia, no confronto com a sombra, no contato com nosso inconsciente coletivo, com o auxílio da Anima, teremos a chance de redescobrir nossa identidade e nosso destino.

Palavras-chaves: Maria, Mariana, lama, Anima, feminino, sombra, inconsciente, renascimento, corrupção, ética.

Em 5 de novembro de 2015 aconteceu o que foi considerado o pior desastre ambiental do Brasil e o maior acidente mundial de barragens: o rompimento da barragem do Fundão em Mariana (MG), que fez com que o distrito de Bento Rodrigues submergisse sob um mar de lama com dejetos das minas, que afetou também Águas Claras, Ponte do Gama, Paracatu e Pedras. A lama cheia de rejeitos tingiu as água do Rio Doce chegando até o oceano e atingiu a cidade de Barra Longa e mais de 40 cidades do leste de Minas Gerais e do Espírito Santo. Esse acidente deixou 2 pessoas desaparecidas, 17 mortas, ocasionando a destruição da fauna e da flora, das moradias, dos sonhos e da tranquilidade dos habitantes do local.

Estudos consideram a possibilidade de um possível rompimento das barragens que estão em pé, numa enxurrada de vazamento de 105 bilhões de litros de rejeitos, contra os 40 bilhões despejados da estrutura do Fundão. A mineradora afirma que está trabalhando para reforçar os reservatórios remanescentes.

No dia 27 de janeiro de 2016 houve uma nova movimentação de parte da massa residual do mesmo reservatório, devido às chuvas, o que causou novo deslizamento.

Esses acidentes nos remetem ao “tsunami de lama” que temos acompanhado em relação à putrefactio existente quanto à ética do povo brasileiro. Impotentes, assistimos aos resultados e notícias de investigações a respeito da corrupção em nosso país. Pede-se o impeachment da presidente, chefe hierárquica e responsável por muitos dos investigados acusados de corrupção. Cobra-se o afastamento dos presidentes do Senado e da Câmara. Executivos, donos e dirigentes de empreiteiras são presos. A Petrobrás foi sugada e suas ações despencaram. Há corruptos e corruptores, promiscuidade entre juízes, políticos e empresários, a inflação domina o cenário. Estamos vivendo um momento de crise, uma depressão social e econômica, com reflexos evidentes sobre as áreas da educação e da saúde. Reitores de universidades assinam manifestos de apoio partidário e o ex-ministro da Educação, o senador Cristovam Buarque, afirma que “desaprenderam a pensar”, que a Pátria Educadora não existe e que o fato de que a fortuna acumulada de nosso ex-presidente e sua família não está mais escondida. Pessoas morrem sem auxílio hospitalar e temos vergonha quando vemos as filas desumanas e as precárias condições de hospitais e postos de atendimento. A população sofre com a ocorrência da microcefalia em áreas com a proliferação do zika vírus.

Enfim, estamos assolados por um mar de lama com dejetos mortais. Narciso não consegue mais olhar seu rosto refletido nas águas porque estas estão enlameadas. Assim é preciso que façamos a abolição da egolatria. Não podemos mais dissolver-nos nas águas devido ao isolamento e fascínio de nós mesmos. É preciso que nos comprometamos com a humanidade, a solidariedade, a dignidade, a elegância e a ética. Não com o utilitarismo, a ganância, a especulação, a malandragem, a mentalidade de povo colonizado, o jeitinho, a especulação, a esperteza em seu sentido negativo.

A explosão da lama aconteceu em Mariana. Em Maria explodiu a lama. Qual seria o significado de tudo isso?

Podemos arriscar algumas reflexões e para isso recorremos aos aspectos do feminino de nossa alma individual e coletiva. James Hillman em seu livro “O Mito da Análise” aponta que só nos livraremos da repressão e da neurose quando tivermos resolvido com sucesso o repúdio da feminilidade. Que aspectos do feminino represados irromperam em forma de lama?

A Anima é o arquétipo da vida, como Jung colocava, e desempenha papel importante no inconsciente de um homem. Tudo que é tocado por ela se torna numinoso, perigoso, mágico. É, portanto, um arquétipo poderoso que reclama por ser considerado. As forças instintivas, se não forem levadas em conta, se revoltam, pois seu aspecto fascinante é desprezado. Ela também é representante daquilo que o homem não sabe lidar e do inconsciente coletivo. (v. IX, 1 §439)

Jung afirma também que em estado de possessão a anima perde seu encanto e valores, fica medíocre, perdendo a ligação com o inconsciente. ”Voltada para fora, a Anima é volúvel, desmedida, caprichosa, descontrolada, emocional e às vezes demoniacamente intuitiva, indelicada, perversa, mentirosa, bruxa e mística.” (v. IX, 1 §223) Tem um considerável poder possessivo, um fascínio. Como podemos perceber, o inconsciente tem uma qualidade feminina (§294).

Lembremos que a função do arquétipo é compensar as unilateralidades da consciência. Assim também a integração da sombra provoca uma mudança de personalidade.

A sombra integrada, servindo de recurso para iluminarmos nossa consciência coletiva na nigredo alquímica, a putrefactio, é um pré-requisito para o renascimento. O barro, material primordial do qual nossa cultura ocidental revela que o homem foi criado, tem também seu lado sombrio quando o atribuímos à degradação, processo onde nos deparamos com a corrupção e a deterioração, mas que também pode ser transformado numa sucessão de mudanças, em uma evolução mais numinosa, que busca novas formas, novas medidas em direção à saúde.

Estamos envolvidos com uma lama que pode tanto dar forma a indivíduos esclarecidos, cidadãos cuidadosos, pessoas e governos éticos, como pode nos destruir através da corrupção, da esperteza, do desemprego, da fome, da criminalidade, da vulgarização da alma e da vergonha.

No presente caso poderíamos refletir como a explosão de lama pode nos ajudar a construir um Brasil melhor. A lama, usada como material para dar forma ao novo, a nigredo transmutada para chegar à albedo, ou seja, à purificação.

A lama invadiu as águas do Rio Doce, que desaguou no oceano. Temos a oportunidade de unir os opostos, num movimento de enantiodromia, a favor do desenvolvimento de nossa consciência.

Como diz Jung, “o significado unívoco é um sinal de fraqueza… só o paradoxal é capaz de abranger aproximadamente a plenitude da vida. A univocidade e a não contradição são unilaterais e portanto não se prestam para exprimir o inalcançável.” (v. XII, §18)

Lama, sombra inundando o distrito e se misturando com a água do rio e do oceano. Como é que isso toca a nossa alma? Qual o sentido desse paradoxo? Se não aceitarmos a experiência dos opostos, como poderemos experienciar a totalidade? Lembremo-nos que o Self se constitui da união dos opostos e que é ao mesmo tempo conflito e unidade. Qual é o destino que nosso Self Cultural pode apontar para que saiamos dessa situação de nigredo?

Destaco aqui o feminino ferido, que irrompe de forma violenta, com a lama expressando sua revolta. A revolta contra a corrupção e a impunidade, o medo do desemprego, da fome e do abandono. Daí, o clamor de Maria. Tudo isso nos convida a olhar para nossas raízes, que pelo desrespeito foram tragadas para o inconsciente. E também rever nossa história e nossa cultura para melhor entender o que se passa com a alma mutilada do brasileiro. Através do estudo de nossa mitologia, no confronto com a sombra, no contato com nosso inconsciente coletivo, representado pela Anima, poderemos redescobrir nossa identidade e nosso destino.

Decepção, rancor, raiva, rejeição, distorção, humores, depressão, inflação, irresponsabilidade. Em Mariana a Anima se manifestou da maneira mais hostil. Precisamos dar força a ela, como mediadora do desconhecido. Caso contrário, sofreremos desastres. Não é à toa que várias catástrofes da natureza têm nome de mulheres. Por exemplo, os furacões Linda, Patrícia, Katrina. Segundo artigo publicado no site da BBC, de acordo com pesquisadores da Universidade de Illinois, os furacões com nomes femininos matam mais pessoas do que os com nomes masculinos porque costumam ser levados menos a sério e, como consequência, há menos preparação para enfrentá-los. E ainda, que um estudo divulgado pela publicação científica Proceedings of the National Academy of Sciences afirmou que cada furacão com nome masculino causa, em média, 15 mortes, enquanto os de nomes femininos causam cerca de 42.

De várias formas percebemos que o lado feminino, a Anima, precisa ser levada a sério. É necessário resgatá-la através da ressurreição, do que virá depois da catástrofe, da transformação da nigredo em albedo, da purificação e da união de todas as cores. Fazer com que a lama dê formato a uma nova consciência.

Lembremos que os mitos falam de nosso caráter nacional, de nossa origem e sobrevivência.

Podemos mencionar aqui Nossa Senhora Aparecida, que emergiu em Porto Iguaçú em 17 de julho de 1717, período em que os bandeirantes adentravam no interior em busca do ouro e das pedras preciosas.

Os pescadores João, Domingos e Felipe estavam muito desanimados por não conseguirem pescar seu sustento. João Alves conseguiu pegar uma santa sem cabeça, coberta de lama e musgo, que havia se enroscado na rede. Pouco depois veio uma cabeça. Surgiu a Santa Aparecida das águas barrentas do rio Paraíba.

Quando amanheceu, as redes se encheram de peixes. Veio a abundância. Silvana, a mãe de João, colou a cabeça no corpo da santa com cera de abelha e em 1946 as duas partes foram unidas com um pino de ouro, surgindo o mito de Aparecida. Ela trouxe a compaixão, a profundidade, a vida do inconsciente e a misericórdia que faltava na psique do povo.

Resgatar o corpo e a cabeça e encaixá-los simboliza também nosso esforço heroico do processo de individuação. Corrige o feminino mutilado, que pode dar vida ao amor e à solidariedade. Assim, Aparecida encontrada coberta de musgo e lama representaria esse princípio feminino (Maria) que traz energia e consistência à nossa pátria.

Se considerarmos o Estado como cabeça talvez possamos olhar a catástrofe de Mariana como uma oportunidade de rever nossos valores, incorporar o lado positivo do feminino e estabelecer uma nova consciência, de novos padrões éticos tanto individuais como coletivos (combate à corrupção e ao jeitinho brasileiro). Assim Aparecida tomará a frente da Mula-sem-cabeça em todos os setores.

Considerando o povo como corpo, podemos perceber como esse princípio poderá também nos ajudar na união desses dois elementos.

O surgimento de Aparecida trouxe fertilidade e riqueza. Dessa forma poderemos enriquecer nossa nação com a regeneração de uma ferida ancestral. No nosso imaginário, entre outras figuras mutiladas, temos a mula-sem-cabeça, a mulher do padre, que pode ser interpretada como a Anima castrada e castradora de nossos colonizadores, que também representa a falta de consciência, a cegueira, a falta de valores éticos dos que desembarcaram e colonizaram nossa terra. Perderam a cabeça e ficaram enlouquecidos pelo abuso de poder e pela ganância cega. Isso perdura até hoje. O atual Papa Francisco lançou uma obra intitulada “O Mundo de Deus é Misericórdia”, onde afirma que “a corrupção é o pecado que, em vez de ser reconhecido como tal e nos tornar mais humildes, se tornou sistema (…), uma forma de vida”. Vida perversa.

Da vertente africana da colonização brasileira surgiu a figura de Nanã, a mãe dos orixás, ligada à vida e à morte, à saúde, à maternidade e à fertilidade. Senhora dos mangues, das chuvas, do pântano, da lama.

Foi ela quem deu a Oxalá o barro do fundo da lagoa onde morava, do qual seu marido modelou o homem que com o sopro de Olorum caminhou.

Esse orixá auxilia as transições difíceis da vida, podendo trazer tanto a riqueza como a miséria. Tem como atributo a energia positiva, receptiva e libertadora, propiciando o esquecimento do passado para que nos direcionemos para o futuro, com consciência e clareza. Ora é perigosa e vingativa, ora doce e acolhedora. Sua terra se transforma em lama, da qual nascemos e morremos. É a Grande Mãe, de onde tudo nasce e tudo retorna. Dona da sabedoria e da justiça que vem da natureza, age rigorosamente, oferece segurança, mas não aceita traição. No sincretismo religioso corresponde a Sant’Ana, mãe de Maria. Mais uma vez constatamos aqui o poder da lama, como destruição, mas também como possibilidade de dar lugar a uma nova forma, uma regeneração, através do sacrifício que propiciará uma transformação e integração do mundo primitivo, caótico, inconsciente, para a iluminação da consciência.

Segundo a transcrição de alguns textos sagrados, o anjo Gabriel anunciou a Maria de Nazaré que ela seria a mãe do filho de Deus. Ela foi escolhida, não escolheu, mas aceitou a missão. Permaneceu do lado de Cristo durante a crucificação e apesar de ter o coração dilacerado entendeu o significado daquele sacrifício sem um aceno de impedimento. Está aí sua grandeza e também seu sacrifício: renúncia e alma imolada. Após a morte e ressurreição de Jesus, não foi atrás de segurança e refúgio em sua casa na Galileia, mas permaneceu entre os apóstolos e as mulheres de sua comunidade. Foram construídos os primeiros pilares das suas igrejas. Calcula-se que tenha morrido por volta dos 59 anos e a tradição defende que foi para Éfeso acompanhada do apóstolo João, onde morreu numa casinha de pedra. Só muitos anos depois de sua morte e assunção ela reapareceu sendo reconhecida como Nossa Senhora ou a Mãe de Deus. A ela foram atribuídos muitos milagres.

Morte, lama, desolação, sacrifício, fé, milagre, mistério, desespero, esperança, renascimento, vida. A lama de Mariana nos convida a repensar o Brasil com o olhar de Maria, de amor e compaixão.

Esse olhar exige de nós uma nova postura. Não podemos nos alienar da alma individual e da coletiva. Precisamos encarar o irracional, a sombra, transformando a libido da inconsciência e da inconsequência para uma renovação da consciência, do respeito, da ética, de uma forma criativa.

Aparecida e Nanã nos sugerem que para termos fertilidade precisamos juntar as partes do nosso corpo individual e coletivo, num trabalho de transformação da alma e no respeito ao feminino, à anima, fenômeno da vida, que experimenta o mistério e faz a conexão com o Self.

Através da reflexão e da introspecção poderemos decidir o que vamos ser daqui para frente, respeitando nossas raízes e aprimorando nossos valores. Nosso ato de escolha ultrapassa o pensamento científico e nasce também da intuição, do sentimento, da vivência.

Que o clamor de Maria seja um convite para a transformação da nigredo em albedo numa opus sagrada, respeitando os paradoxos, provocando as mudanças necessárias em relação a uma nação mais saudável e próspera, numa tentativa de coniunctio.

Que da lama consigamos colher a flor de lótus, flor do renascimento, da energia, da fertilidade, do esclarecimento, da elegância, da pureza, da totalidade e da graça.

Que possamos entrar em contato com o inconsciente coletivo, buscando nas redes lançadas uma imagem de fé no polo feminino e um atendimento às suas necessidades. Não sejamos negligentes e reconheçamos Maria.

Salvemos Maria!

Maria, Maria

É um dom, uma certa magia

Uma força que nos alerta

Uma mulher que merece

Viver e amar

Como outra qualquer

Do planeta

Maria, Maria

É o som, é a cor, é o suor

É a dose mais forte e lenta

De uma gente que ri

Quando deve chorar

E não vive, apenas aguenta

Mas é preciso ter força

É preciso ter raça

É preciso ter gana sempre

Quem traz no corpo a marca

Maria, Maria

Mistura a dor e a alegria

Mas é preciso ter manha

É preciso ter graça

É preciso ter sonho sempre

Quem traz na pele essa marca

Possui a estranha mania

De ter fé na vida

Maria, Maria – Milton Nascimento

Bibliografia

ALVAREZ, Rodrigo. Maria. São Paulo: Editora Globo, 2015.

BBC Brasil – “Como os furacões são nomeados” – http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151023

BRIZA, Dulce Helena Rizzardo. A Mutilação da Alma Brasileira: um estudo arquetípico. São Paulo: Vetor Editora, 2006.

Jornal Folha de São Paulo. 20/01/2016. Caderno Cotidiano.

JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Editora Vozes, 2000.

_______________. Psicologia e Alquimia. Petrópolis: Editora Vozes, 1990.

PENNA, Lucy. Aparecida do Brasil – a madona negra da abundância. São Paulo: Editora Paulus, 2009.

Revista Veja, Editora Abril, Edição 1461, Ano 49, nº3 (20/01/2016). Entrevista com Cristovam Buarque. p.13.

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