Entre Amigas

Palestra apresentada a quatro mãos com a amiga Denise Maia no XXIV Congresso da Associação Junguiana do Brasil, realizado em Foz do Iguaçú, cujo tema foi Fronteiras.

Vídeo de abertura:

Texto da palestra:

Entre Amigas
Denise Diniz Maia
Dulce Helena Rizzardo Briza
XXIV Congresso Internacional da Associação Junguiana do Brasil (AJB)
Agosto de 2017
Não reparamos que éramos um só,
que cada um de nós era uma ilusão do outro, e cada um, dentro de si,
o mero eco de seu próprio ser.
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego
O processo de individuação implica em que o indivíduo desenvolva em sua psique a tendência de caminhar para o equilíbrio e para a totalidade. Consideramos que a alma humana é constituída pelo processo da união de opostos, num trabalho no qual o indivíduo consiga fazer nascer a si mesmo, que seja dono de uma personalidade singular em profundidade, rica, autônoma, isto é, que torne-se um consigo mesmo. Para isto é necessário que o consciente e o inconsciente, assim como o eu e o Self, estejam num relacionamento contínuo. O confronto com a sombra tanto individual como coletiva é difícil, porém necessário, “pois o mal é o oposto necessário do bem, sem ele não existiria o bem. Nem mesmo podemos prescindir do primeiro. ”
A amizade entre duas pessoas, portanto, possibilita um rico encontro dialético e o confronto com a sombra. Através do espelhamento, podemos ir tanto ao céu como ao inferno, mas também contamos com a grande oportunidade de desenvolver nossas potencialidades. Esse relacionamento deve, portanto, propiciar a distinção das fronteiras entre eu e o outro e auxiliar as amigas no processo de individuação. Não nos esqueçamos que o inconsciente coletivo é uma fonte, que através dos símbolos será capaz de transformar a energia psíquica e por meio desta a psique se transformará, tornando-se apta para integrar seus conteúdos inconscientes, ampliando a consciência e fortalecendo o ego. Quando a consciência é capaz de entender o sentido das imagens, pode haver então uma transformação não só desta, mas também do inconsciente. Para Young Eisendrath, o objetivo da individuação é o poder de utilizar a função transcendente, a tensão e a interação de opostos na vida cotidiana. É um processo contínuo que exige que cada pessoa desenvolva a capacidade de refletir sobre seus próprios estados subjetivos sob diferentes perspectivas. A função transcendente significa que temos um relacionamento dialético com os vários aspectos de nós mesmos e, por conseguinte, passamos a presenciar e aceitar uma gama de estados subjetivos, sem julgamento ou cobranças pessoais, o que pode acontecer também em relação à outra pessoa.
Tudo isso converge para a ideia de que não há processo de individuação quando o indivíduo se recolhe a uma torre de marfim, pois o contato com o mundo e com os outros é que o auxilia nesse processo. Se este tem como meta tornarmo-nos o
que somos, a amizade também nos leva a sermos o que somos e aceitar o outro do jeito que ele é. Dessa forma teremos a chance de ampliar nossa cosmovisão e nosso autoconhecimento. E é também lidando com as fronteiras da amizade e respeitando as diferenças que poderemos crescer rumo à individuação.
A amizade desempenha um papel fundamental em qualquer tipo de comportamento e autoconhecimento, abrindo espaço para uma cuidadosa identificação de propósitos e de permuta de valores, facultando o crescimento dos interesses e das realizações. Pode, portanto, ser o vaso alquímico que colhe e incentiva o processo de individuação.
É possível, nessa interação, o contato com a sombra, com os limites, com o egocentrismo e com as diversas emoções. Também é possível lidar com os afetos e as dificuldades, fazendo com que o indivíduo cresça e se encontre no encontro com o outro, isso tudo aquecido com o calor humano, delicadeza, elegância e maturidade. Surge daí o desenvolvimento da força criadora, que evolui através dos relacionamentos e da prática de trabalhar com as fronteiras que separam uma identidade da outra.
No convívio entre amigas é preciso que as fronteiras nítidas da individualidade e do sigilo sejam respeitadas, pois essas fronteiras são as responsáveis pela construção da relação.
É preciso cultivar o amor, que é base de qualquer relacionamento.
Vinicius de Moraes, poeta que dava enorme importância ao amigo, pontuou:
A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo,
no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo.
Amizade, o amor Philia, é coisa muito séria. Ao amor entre as pessoas pertencem a profundidade e a fidelidade de sentimento, o respeito, a transparência e a confiança.
O arquétipo da Fratria, matriz da Philia, nos remete à amizade e às experiências afetivas, onde as amigas muitas vezes se chamam de irmãs.
A irmã de alma pode influenciar, complementar a individualidade, fato que implica na experiência da assimilação e a apreciação da diversidade, resignificando.
O contato com uma amiga é importante para o desenvolvimento das mulheres, pois é fonte de apoio emocional, de aceitação e segurança, fator importante no processo de individuação.
A verdadeira amiga nos coloca em confronto com nós mesmos. Aquilo que por nós é desconhecido é o que devemos nos familiarizar e integrar.
Num primeiro momento, esta familiaridade pode ser vista como o prolongamento da primeira relação mãe/filha, onde se apresenta a confiança e a solidariedade entre as mulheres. Segue o contato da mulher consigo mesma, e início da relação e acesso a novas vias que a conduzem à sua própria identidade e ao relacionamento com outras mulheres, através do lado emocional. Isso propiciará maior autonomia para que ela se assuma do jeito é. O perigo que surge da identificação recíproca
é o da simbiose, que dificultará o processo de individuação e de uma relação verdadeira, pois aí encontraremos apenas as projeções.
Vale notar que o vínculo que a mulher teve com sua mãe no início da vida influenciará as relações que teremos durante o existir. É preciso que o indivíduo supere o lado negativo de seu desenvolvimento e da dinâmica matriarcal, de caráter inferior, infantil, arcaico e caótico. Quando o relacionamento primal com a mãe é positivo e seguro, acompanha-se a fase de rompimento com a grande mãe e a iniciação no mundo patriarcal. Segundo Neumann, a “traição da mãe” para se adentrar no mundo do pai, poderá ser vista como uma “traição de sua essência”, e o movimento para o mundo do pai a “rendição de sua própria natureza”. Isso trará problemas para a vida da pessoa e no seu relacionamento com os outros. Daí surgem as dificuldades que podem ocorrer para o vínculo de uma amizade.
Neumann afirma: “O medo do desconhecido e de tudo o que é estranho ao ego vem a ser medo dos aspectos desconhecidos de “si mesmo” e de “seu Self desconhecido”, e a cada estágio arquetípico o indivíduo precisa superar o medo que cada fase apresenta. Muitas vezes as amigas se dão suporte para essa superação.
Algum pedaço do “não-Eu” é reconhecido e percebido como pertencente à pessoa e essa transformação é alimentada pela força do Self. O bom relacionamento com uma amiga, incluindo as diferenças, é, sem dúvida, uma fonte facilitadora de energia e do desenvolvimento da individualidade, enfim, partícipe do processo de individuação.
É importante que haja uma delimitação de fronteiras no relacionamento entre duas pessoas para que não se caia no erro do sentimento de dependência, o que atrapalhará o sentimento
de autonomia. O arquétipo do duplo cria um sentimento de compartilhamento entre as pessoas e por um entendimento dinâmico e intuitivo, proporciona uma vivência comum de propósitos e metas. Pode ser também um agente mobilizador dentro delas.
Entretanto, quando os aspectos rejeitados desse duplo são projetados em alguém, a sombra é constelada e o lado negativo do outro bloqueará os impulsos construtivos.
As imagens arquetípicas da amizade podem despertar as nossas possibilidades latentes e nos tirar a sensação de isolamento, criando um novo elo entre eu e o outro.
Numa relação existem semelhanças e diferenças, constelando tensão entre os paradoxos: intimidade e distância.
Quando nos damos conta da amiga-irmã podemos achar espaço para nossas diferenças, o que é desafiador, espaço esse tanto para decepções como surpresas.
Jung fala a respeito da alma do outro em nós como um amigo interno da alma: “trata-se da representação da relação com o amigo interno da alma, no qual a própria natureza gostaria de nos transmutar: naquele outro, que também somos, e que nunca chegamos a alcançar plenamente… Sempre preferiríamos ser “eu” e mais nada. Mas confrontamo-nos com o amigo ou inimigo interior, e de nós depende ser um ou outro”.
Marguerite Yourcenar comenta que toda amizade verdadeira é um bem duradouro e, mesmo numa longa ausência a presença é constante.
Creio que a amizade com o amor que dela participa exige quase tanta arte como um passo de dança bem sucedido: elã, comedimentos,
trocas de palavras e silêncio… E sobretudo respeito…
Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias …
Trecho adaptado da música “Saudação de Amigo”,
de Padre Zezinho
A amizade saudável não é cerceadora, mas preservadora, respeitadora das fronteiras, onde exige um “eu-eu”, que convive com o “eu-outros”. Ela preserva a identidade, separando o externo do interno. Garante proteção, autonomia, integridade. E nesse exercício é importante que os limites de cada ser sejam respeitados. E é no ponto exato em que os limites chegam no final que as fronteiras são estabelecidas. Quando a amizade do amor-amigo as atravessam, aparece a sombra em forma de ciúmes, competição e sabotagem, traição, ameaças, fofocas e intrigas, deslealdade, inveja.
E as atuações são as mais diversas.
Notamos que na mitologia grega, por exemplo, algumas deusas e mulheres competem entre si havendo ciúmes, rivalidade e inveja.
Fazendo referência ainda a esta mitologia, Jean Bolen caracteriza as mulheres regidas por Ártemis como sendo do tipo “grande irmã”. As mulheres estão sempre disponíveis para ajudar as outras. Elas são o arquétipo inspirador das “irmandades”, associam-se às amigas estabelecendo relacionamentos, sendo consideradas “mentoras” com as amigas mais jovens. Nesse comportamento observamos a expressão da solidariedade.
As mulheres do tipo Atenas carecem de amigas íntimas e as relações com outras mulheres são competitivas. Atenas tinha uma amiga muito próxima, Palas. Num jogo competitivo matou sua amiga de adolescência por acidente. A falta de empatia de Atenas impede o desenvolvimento de relações de amizade com outras mulheres, o que pode ser considerado uma expressão do excesso de competitividade.
A mulher Hera não atribui grande importância às amigas, afasta-se de outras mulheres e privilegia a relação com os homens.
A mulher Demeter tem uma estreita amizade com outras mulheres, muitas vezes exercendo um papel materno e cuidador.
A mulher Afrodite, em seu aspecto positivo, valoriza a espontaneidade e atratividade em relação a outras mulheres. No aspecto negativo, inconscientemente estimula nas outras ciúmes e sentimento de inadequação.
Da mitologia africana, podemos citar outros exemplos. Iansã era um búfalo e foi flagrada por Ogum, o ferreiro, quando estava entrando num rio e tirando a pele. Este apaixonou-se por ela, seduzindo-a e escondendo a pele de búfalo. Ela resolveu segui-lo com a condição de que ele jamais revelasse o seu segredo. Mas as mulheres do reino em que viviam, enciumadas, embriagaram Ogum, que revelou o segredo de Iansã. Ela foi ridicularizada pelas mulheres. Então transformou-se em búfalo, matou-as e voltou para a floresta.
Obá, guerreira, era apaixonada por Xangô, administrador do reino, que não lhe dava nem amor, nem atenção. Infeliz, perguntou a Oxum como poderia ser amada por Xangô, como ele amava a amiga. Esta a aconselhou a fazer uma comida especial que elas preparariam juntas. Quando se encontraram para fazer tal especiaria, Oxum estava usando um turbante que escondia suas orelhas e iniciou a fazer a comida colocando dois cogumelos dentro. No outro dia foi Obá que ofereceu o alimento para Xangô, arrancando uma de suas orelhas, colocando-a dentro do prato.
Esperava dessa maneira conquistar seu amor. Mas seu intento teve efeito contrário: quando Xangô viu a orelha, ficou furioso e expulsou Obá. Esta foi ter com Oxum, que riu e
debochou dela após ter desenrolado o turbante, mostrando as orelhas intactas. Obá, furiosa, começou uma briga feroz com a “amiga”. Xangô, irritado, soltou fogo pela boca e as transformou em dois rios.
Muitas vezes as amigas podem ser cruéis quando se trata de competição, ciúmes, inveja e insegurança. Essa crueldade pode deixar marcas emocionais profundas, que demoram muito para cicatrizar. A irmandade passa a ser questionada e a intimidade, fonte de traição.
Através de uma amizade podemos encontrar a própria sombra. Se estivermos atentos, poderemos nos conscientizar das projeções negativas e competitivas que fazemos.
Mary Del Priore, que estudou o universo feminino, comentou: “elas competem por tudo, a diferença é que algumas jogam limpo e outras não”.
Por outro lado, uma pesquisa realizada nos Estados Unidos sobre amizade entre mulheres, aponta a evidência de que as mulheres desde pequenas necessitam de amizades intensas e têm uma tendência a formar círculos íntimos. Desde cedo as meninas convivem com amigas de mãos dadas, fazendo tudo juntas. A intimidade e a empatia estão presentes e as mulheres são mais livres do que os homens com pessoas do mesmo sexo: expressão de afeto, confidencias e confiança.
As amizades entre mulheres são mais profundas e duradouras.
Quando a amizade é valorosa, encontramos a intimidade, lealdade, a fidelidade, a cumplicidade, o altruísmo, a confidencialidade, a afeição, o comprometimento, a parceria, a franqueza, a solidariedade, a aceitação e o prazer. A amizade sincera também pode dar lugar a puxões de orelha.
O amigo não passa a mão
Quando fizemos algo errado
Está firme ao nosso lado
Puxa a orelha, chama a razão!
Cora Coralina
Vinicius de Moraes dizia que o amigo a gente reconhece. O sentimento da amizade está baseado na afinidade, confiança, acolhimento, respeito, solicitude, enfim, no amor fraterno.
Pitágoras já afirmava que os amigos têm tudo em comum, e a amizade é a igualdade.
Menandro, comediógrafo grego (342-291 AC) disse: “para o corpo doente é necessário o médico. Para a alma, o amigo. A palavra afetuosa sabe curar a dor”.
O amor é que pode levar as amigas a atingir o que há nelas de melhor e mais elevado.
É preciso, entretanto, estarmos atentas à função do animus, que pode ser tanto fonte de felicidade, como de sofrimento nas amizades.
Lembrando o que certa vez escreveu M. Esther Harding, “O amor é revelação recíproca das diferenças, e estas não devem ser reprimidas, pois elas se unem e se completam: há uma igualdade nas diferenças de natureza e de espírito”.
Escolhemos um romance de Elena Ferrante, autora italiana, composto de 4 livros, infância/adolescência, juventude, maturidade e velhice, para contar o percurso de duas vidas, onde a amizade feminina é vista como parte importante no processo de individuação entre mulheres, ao longo de toda uma vida.
A história passada em Nápoles, nos anos 1950, conta a relação de duas meninas, Lila e Lenu, que desde pequenas, se olhavam com o olhar perspicaz e cruel de crianças que se enfrentam num confronto de habilidades e fragilidades.
O afeto e o conflito sempre estiveram presentes, bem como as inseguranças da infância e dúvidas da adolescência. O duelo entre admiração e repulsa, inveja e afeto, intimidade distância, foi sendo construído.
As imagens de outrora de afeto e cumplicidade faziam com que a falta da amiga trouxesse um desconforto. Tinham medo de que se uma perdesse partes da vida da outra, a própria vida se perderia.
E assim foram se tornando indispensáveis uma à outra.
No relacionamento estavam presentes as brincadeiras perigosas, a maldade e a destrutibilidade, enfim amigas que ao crescer, duelavam, se completavam, se separavam e se uniam.
E mesmo tendo tido as mesmas experiências, mesmo vivendo ambas situações semelhantes subitamente foram buscando dois mundos diversos.
Lila e Lenu foram crescendo e com elas os sofrimentos e os prazeres da juventude. Na formação de duas meninas, tão diferentes, um mundo repleto de caminhos se abriu, mas também muitas portas que se fecharam.
Quando completaram 16 anos sentiram-se muito ligadas uma à outra. Lila enérgica e vivaz, se atirou à vida sem medir
consequências. Lenu, tímida e insegura foi tateando o mundo para testar suas capacidades, sempre tendo Lila como referência do que não via em si mesma.
Enquanto Lila se casou e viveu a promessa de prosperidade e boa vida, surgiu ao mesmo tempo o receio de perder-se a si mesma. Lenu tornou-se uma estudante insegura e insatisfeita, mas perfeccionista e curiosa. E mesmo amadurecendo uma pelo casamento, outra pelos estudos, não deixaram de ser adolescentes, testando limites, buscando caminhos…
Apesar das mudanças, o afeto entre elas permaneceu intacto.
Segundo Lenu, Lila em sua extroversão e força parecia muitas vezes se apropriar de sua coragem, fazendo-a sentir-se anulada.
Lila falava e expunha sentimentos. Para Lenu isto era cruel pois ela se sentia incapaz de reagir, e humilhada, se calava cultivando o rancor.
Lila procurou viver suas alegrias conjugais e Lenu as pequenas felicidades de uma solteira que passava a vida estudando.
Lila começou a viver um adultério, cujo parceiro era a pessoa pela qual Lenu se apaixonara.
Para Lenu tudo era vivido em segredo e ao ocultar o que ocorria sentia-se traída. Nunca conseguiu falar para Lila de seus sentimentos, mas ficava à espera de que esta percebesse o que sentia.
Lenu foi para Pisa estudar, precisava se afastar para se perceber, mas havia sempre em suas palavras e atitudes um eco. Neste novo contexto, Lenu foi se fortalecendo e se descobrindo separada de Lila.
Lenu cada vez mais foi se envolvendo com os estudos, mas se mostrando afastada de seus sentimentos, não revelava desejos e angústias, só se sentia fortalecida e sem medo quando era considerada interessante para alguém.
Os fatos do passado foram ficando tênues. Afastada de Lila sentia falta dela e se via muitas vezes pensando na amiga e sobre o que ela estaria vivendo. Ao mesmo tempo sentia receio de encontrá-la e se sentir frágil, perdendo a confiança em suas novas escolhas.
Lenu se propôs a escrever o livro “A fada azul”, estória de um conto escrito por Lila, quando eram pequenas. Ela percebeu que a amizade com Lila e o livro que começou a nascer tinham-lhe lançado raízes profundas e, no caso em que alguma coisa acontecesse, Lila e ela não poderiam se perder nunca mais.
Lenu foi rever a amiga em outra cidade e encontrou-a com muitas dificuldades. Perceberam que cada uma teve suas experiências e que era bom se reencontrarem para sentirem o som do coração de uma disparada pelo ecoar do coração da outra.
Neste reencontro notaram o quanto ainda estavam próximas e, ao se reverem, restituíram partes levadas ou deixadas de uma ou de outra…
Pela forte proximidade entre elas, Lenu sentiu-se forçada a se imaginar como não era. Somando-se à Lila sentiu-se mutilada sem que ela soubesse disso.
A distância e a voz no telefone sendo a única forma de contato durante muitos anos, fez com que se tornassem muito abstratas, de tal forma que podiam inventar-se uma para outra, cada uma de sua maneira. Precisavam agora de um corpo que as reaproximasse.
Para Lenu, o envolvimento maior então se tornara o livro. Aquele sugerido por Lila, onde juntas escreviam a própria história. Nele Lenu conseguiria se expor.
Lenu e Lila partiram para os embates da vida adulta, vivendo uma nova fase: uma sequência de angústias sem o espaço para a inocência de outrora.
Lila, a menina que encantava a todos com suas idéias modernas, forte e guerreira era agora uma mulher castigada pela vida. A partir de escolhas impulsivas, deixou o casamento para viver um grande amor e se frustrou, tendo que assumir um emprego braçal para sobreviver.
Lenu buscou uma cidade mais desenvolvida e no mundo acadêmico completou seus estudos, tornando-se autora de um livro de sucesso, casando-se com um professor universitário.
As duas amigas tornaram-se mães e passaram a se falar com mais frequência pelo telefone.
Como na infância, apesar da necessidade de compartilhar experiências, Lenu tinha a sensação de que Lila precisava sempre destruir e desvalorizar os seus momentos de conquistas, precisando se afirmar sobre a experiência de Lenu.
Apesar da distância física e por vezes trajetórias opostas, as vidas das duas amigas voltaram a se aproximar. Fatos do passado retornaram. Houve uma necessidade mútua de compreensão e ajuda, num enredo de bifurcações e acontecimentos.
Na maturidade, as duas se casaram novamente e tiveram filhas na mesma época. A relação entre elas tornou-se muito estreita. Passaram a fazer todas as coisas juntas e a compartilhar plenamente esta nova fase, ajudando-se mutuamente.
Veio o envelhecimento, com novos desafios e a amizade entre ambas, ora redentora, ora doentia, tornou-se ainda mais intensa.
Fatos novos foram surgindo e novamente uma separação se propôs entre elas. Lila incomodou-se com a forma que Lenu foi expondo as experiências e sentimentos em seus livros.
Lila desapareceu e Lenu ficou numa constante busca da amiga. Havia nela um enorme desejo de se confrontar com Lila: ouvir suas queixas, poder se explicar. Era um misto de saudades e raiva, culpa e incompreensão, um sentimento de exclusão na velhice, quando a proximidade e a solidariedade se fazem tão necessárias.
Lenu foi entendendo em fatos que surgiram, que Lila dava sinais a ela de sua presença, mas que não mais voltaria e assim ficaria o desconforto e a percepção resignada de que Lila estaria presente para sempre, somente dentro dela.
O livro “Flor da Neve e o Leque Secreto”, de Lisa See, que deu origem a um filme com o mesmo título, nos reporta ao século XIX na China, onde havia o laotong, um pacto de amizade eterna entre as mulheres. Eram as irmãs de coração, com quem se dividia a angústia e as amigas sentiam-se amparadas, uma ajudando a outra a superar as dificuldades, independentemente da distância física. Comunicavam-se por vezes escrevendo nos leques.
A película se passa ao mesmo tempo no século XIX e no século XXI. Amigas adolescentes estabelecem um compromisso feminino de amizade e lealdade, através do qual seus destinos estão ligados para sempre.
Tanto no livro como no filme, a cumplicidade na dor e na alegria e o cuidado recíproco, regada a compaixão, permitem
uma ligação eterna. São as coisas do coração, que nunca mudarão, apesar das mudanças externas.
O livro faz referência à palavra laotong, que significa “irmãs de alma”, em inglês old sames, um tipo de relação dentro da cultura chinesa e praticado em Hunan. Para as mulheres esse relacionamento era o vínculo de amizade mais precioso. Muitas vezes a relação laotong já era estabelecida antes do nascimento das meninas. Havia uma intermediária que providenciava a escolha e depois o contrato assinado pelas duas partes era selado. Os perfis astrológicos chineses poderiam ser considerados, assim como a classe e a distância. A linguagem usada nos leques para comunicação das laotong servia como base, sendo o Nu Shu a escrita adotada, e testemunhava muitas vezes a vida sofrida e cheia de provações. No livro, Madame Wang, a casamenteira e responsável pelo laotong, comenta: “Esta é uma reunião de dois corações que não pode ser rompida pela distância, por desentendimentos, por solidão, por um casamento melhor ou permitir que outras meninas e mais tarde mulheres se intrometam entre vocês”. Os leques eram os mensageiros, porquanto os encontros eram raros, incitadores de fantasias e mobilizadores de transformações.
Convém destacar também o papel dos leques. Na China e no Japão são considerados capazes de abanar e espantar os maus espíritos. Presume-se que sejam um objeto usado desde a mais remota antiguidade, há mais de 3 mil anos.
A mitologia nos conta que o primeiro leque teve origem na asa de Zéfiro e foi arrancada por Eros para abanar Psique. Conta-se também que Kan-si, a filha de um importante mandarim, ao assistir à festa das lanternas sentiu-se mal com o calor proveniente das velas acesas e, contrariando a tradição, retirou a máscara que lhe escondia o rosto e começou a se abanar ao que foi imitada por outras mulheres, originando daí o leque.
Durante muito tempo foi símbolo do poder e da elegância, sendo que no século XIX tomou força a “linguagem do leque”, que consistia num complicado sistema de gesticulações e posições que tornava possível às damas se comunicar e flertar.
Madame de Stäel certa vez comentou: “Há tantos modos de se servir de um leque que se pode distinguir, logo à primeira vista, uma princesa de uma condessa, uma marquesa de uma routirière. Aliás, uma dama sem leque é como um nobre sem espada”.
Levando em conta a história do início do leque na China, observamos que Kan-si estava se sentindo mal e usou um objeto que lhe trouxesse bem-estar. Podemos pensar no leque como libertação de um desconforto, que traz através do ar, entendido como espírito, conforto e equilíbrio para momentos de aflição ou alegria. Ele acompanha emoções e através dele se dá a comunicação. As laotong os usavam como linguagem não só gestual, mas como escrita, para relatar seus sentimentos, sua vida e seus sonhos.
O ar nos desoprime, nos liberta, nos faz respirar, carrega nossos pensamentos, nossas alegrias, nossas palavras. Sem ele não se vive. Sem uma boa amiga também não.
É importante também destacar que na China existia o costume de fazer com que os pés ficassem pequenos, o que seria um ótimo fator para se arranjar um bom casamento.
O tormento das meninas tanto no livro quanto no filme nos impressiona, pois era uma ação torturante para as meninas de até 6 anos de idade. Esse processo poderia levar a criança à morte, por infecção. Consistia em tornar os pés perfeitos: “Ele deve ser cheio e arredondado no calcanhar e formar uma ponta na frente com todo o peso sustentado pelo dedão. Isso significa que os dedos e o osso do pé devem ser quebrados e entortados
para trás para encostar no calcanhar”. “Se eu conseguir isso, minha recompensa será a felicidade”.
Bandagens eram usadas para fazer com que os dedos se encontrassem com o calcanhar, criando uma fenda, deixando de fora o dedão para que a menina andasse sobre ele. As ataduras bloqueavam a circulação do sangue e ela era obrigada a andar, o que causava uma dor imensa. Sangue e pus vazavam pelas ataduras. Na China, todas as meninas, de todas as classes sociais, passavam por esse horrível sacrifício para se tornarem mulheres, esposas e mães de valor. Observamos nessa cultura o feminino mutilado, a anima posta de lado e o laotong como um meio de fazê-lo tornar vivo. Os pés enfaixados eram o símbolo da reclusão e da submissão das mulheres e a deformação se tornava um símbolo sexual, constituindo um fetiche de amor. Tanto no livro como no filme, as amigas se separaram por um mal-entendido criado a fim de que uma protegesse a outra do sofrimento. Mas a amizade superou esses desencontros, havendo um final de afeto, amor e amizade.
Esse costume, que para o ocidental pode ser considerado perverso, era para os chineses uma forma de se superar a fragilidade e tornar-se uma esposa atraente e submissa, preparada para dar ao marido os filhos e a satisfação sexual.
Essa mutilação nos mostra a situação da mulher na China de não há muito tempo, bem como a importância do laotong, onde as mulheres tinham um espaço (através de uma escrita secreta) para confidenciar seus sentimentos de dor e alegria.
O livro retrata a estória, passada no séc. XIX, de meninas que se tornaram laotong e que, apesar de caminhos tão diferentes, quer pelo casamento e status social, quer por conflitos existenciais, se encontram e desencontram por toda a vida.
Tanto no livro como no filme, as amigas se separam por um mal entendido criado para que uma amiga protegesse a outra do sofrimento. Mas a amizade supera esses desencontros, havendo um final de afeto, amor e amizade.
Quando existe uma amizade saudável e realmente amorosa, que respeita as fronteiras da intimidade de cada parceira, quando a sombra da relação torna-se consciente e matéria de reflexão, pode surgir uma amizade que alimenta e conforta a alma, e o sentimento generoso e verdadeiro que nos faz sentir o privilégio de podermos ser pessoas dignas e amadas.
Uma das boas coisas da vida é a conversa entre amigas, o que faz com que examinemos nossa ideologia e valores, nossos medos e superações. Esse é um dos motivos que faz com que a vida valha a pena. O saudável relacionamento entre amigas, fronteiras das individualidades respeitadas, proporciona também o exercício da verdade, da bondade, propiciando o conhecimento da liberdade, dos limites, da justiça, do amor e da compaixão.

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